segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sopa de maçã

Detalhes que ficam na lembrança são como dentes persistentes.

E a história é mais ou menos esta:

Era uma cidade pequena.

Uma família de posses médias.

Deve fazer uns 50 anos. Um tempo em que gravidez ainda era uma reluzente combinação de alegria e temor.

Chamaram um padre cauteloso quando as contrações começaram e ele improvisou uma receita de bênção acompanhada de extrema unção e um toque de exorcismo.

A parteira também estava preparada para intervir troglodita caso os pezinhos quisessem se adiantar à cabeça, ou se a criança insistisse em não vir ao mundo.

Foi um dia em que as tensões de nove meses deixaram de ser segredo. Tinham medo que houvesse dedos demais ou de menos, e pavor ao recordar-se do parente distante que nasceu cascudo, pretejado e verruguento.

Era um tempo em que a natureza escondia as surpresas o máximo que podia.

Nem era mesmo possível agradecer com sinceridade os presentes cor de rosa ou azuis.

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As dores duraram quase uma noite inteira. Mas tudo acabou bem. Um alívio que veio com o sol - que sempre nasce.

Os pais ficaram um pouco surpresos, mas não menos felizes.

Duas lindas menininhas.

Logo depois de emboladas e limpas pela parteira, as duas foram colocadas ao lado da mãe exaurida e pálida.

Pareciam dois enormes feijões brancos.

Sorriam desde os primeiros minutos de vida. Mas nunca ao mesmo tempo

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Eli e Edi, "As risadinhas", eram a graça da família.

Todo mundo queria uma foto com elas. Bastava que lhes tocassem os pezinhos, a bochecha, ou mesmo ameaçassem fazer cócegas, e elas gargalhavam alto.

A mãe havia decidido amamentar as duas até que começassem a andar. Mas Eli começava a incomodar pois os dentinhos já haviam apontado. Não sabia sugar sem morder. Foi condenada à mamadeira.

Edi continuou mamando no peito. Cada vez em um. Variedade. E sem pressa.

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Na escolinha Eli tornou-se um dos seres mais temidos. Quando contrariada se jogava feito bicho de boca aberta no braço das coleguinhas e professoras. Era comum voltar pra casa com pingos de sangue na roupa.

Edi continuava nas sopinhas e papinhas. Quatro anos e nada de um dente aparecer. Morria de vontade de mastigar um pedaço de carne.

O dentista dizia que por volta dos 7 anos os dentes permanentes começam a nascer e provavelmente os dela também nasceriam.

- Dentadura? Pra uma criança? Não. Pode comprometer o crescimento da mandíbula.

Era melhor esperar.

Edi só voltou a ter seu momento de bonitinha por volta dos seis anos de idade, quando as crianças perdem os dentes da frente e exibem um charme banguela. Bastava que não abrisse demais a boca para que não percebessem que não lhe faltavam um ou dois, mas todos os dentes.

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Chegaram aos 9 anos.

Eli com muitos dentes de leite trocados, alinhados e de uma brancura e força incríveis. Bastava que sorrisse ao pé das macieiras para que uma fruta despencasse às suas mãos.

Edi ainda sem nenhum. Retornou ao dentista e chorou. Ele então preparou uma prótese que permitia que fizesse ajustes periódicos para que não prendessem a mandíbula da menininha.

Sangrou muito nas primeiras semanas. Edi passou muitas noites em claro. Mas aguentou a dor rezando todos os dias para que a gengiva, até então com textura de clara em neve, se calejasse.

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Lá pelos tempos de ficar mocinha, Eli, que não poupava o mundo dos seus sorrisos ensaiados desde a primeira infância, passou a reclamar muito de dores em toda a boca.

Edi lhe respondeu com inveja branca:

- Deve ser o siso que tá querendo nascer.Que legal!

Foi ao dentista e ele então extraiu os quatro de uma vez.

Ela teve uma hemorragia. Ficou acamada e feliz em casa porque pôde enfim tomar as sopas que durante muito tempo foram quase exclusividade da irmã desdentada.

O alívio durou pouco. Semanas depois a dor voltou.

Em todos os anos de experiência o dentista nunca tinha visto aquilo.

- Estão nascendo mais quatro caninos. E estão empurrando os outros dentes. Vamos ter que arrancar.

Depois apontaram dois incisivos novos. E o sorriso começou a se estragar de vez. A cada dia ficava mais difícil ser bonitinha.

Nos anos que se seguiram os traumas com as extrações se tornaram frequentes. Duas ou três vezes por ano, quatro dentes extraídos.

Eli perdeu a confiança em morder o que quer que fosse. Enfraqueceu. Os cantos dos olhos caíram.

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Perto dos 18 anos Edi ganhou enfim uma prótese mais ou menos fixa.

As gengivas já estavam firmes. A língua já havia se disciplinado e agora cabia na boca fechada.

Em casa queriam comemorar a dentadura nova. Mas ela pedia encarecidamente que chamassem de “prótese”. Dentadura era coisa de velho.

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Eli, antes de chegar aos 30 anos já sentia fundo as dores da solteirice que a perseguiria. Tinha uma vida que se parecia muito com a cara murcha e atrofiada. Passava o tempo entretida com a administração dos analgésicos do dia e da noite.

A mãe havia lhe dado de presente um caderno copiado à mão, com as suas mais deliciosas receitas de sopas.

Em mais uma tarde de tristeza sentiu uma saudade enorme da irmã que havia se casado e mudado de cidade. Decidiu escrever uma carta bem curta falando de lembranças da infância. No final escreveu:

“Quando eu morrer. Quero que recolha da minha boca alguns dentes e guarde em segredo com você. Dê preferência aos mais antigos e persistentes. “

7 comentários:

  1. Anônimo7/8/10 13:51

    Fiquei a imaginar algumas cenas...o melhor, alguém narrando e as duas sentadas e a ilumina-las um foco e só mudando as expressões......
    Vc é de mais...
    bjo
    Merlin

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  2. Metalinguagem de alto nível. Cheguei a contar os parágrafos pra ver se eram 32. (risos) mas vc não chegou a tanto. Que bom que não é óbvio. (mais risos).
    Admiro muito você.

    Ju.

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  3. Lindo, lindo, lindo!

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