quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Freud à tirolesa

As pessoas em geral são esquisitas. Umas menos, outras mais, e outras muito mais!!! Muuito mais!
O normal então é ser esquisito. Os que não têm esquisitices é que são estranhos. Coitados.

Adoro observar as esquisitices das pessoas. (E as minhas devem ser observadas. Com certeza.) Vou começar a andar com um caderninho. É lamentável que as impressões que tenho da gentarada que cruza meu caminho se percam no meio das lindas tralhas da memória. Um dia ainda escrevo a minha “Comédia humana”.

Há alguns anos, logo que tinha mudado de aparamento, uma senhora rabugenta foi bater à minha porta. Dividiríamos a garagem e ela “queria porque queria” que o seu carro ficasse sempre na frente do nosso, porque ela não ia dirigir carro dos outros e não sei mais lá o que de palavrinhas espinhudas e um hálito de café e cigarro junto com cheiro de roupa velha. Muito esquisita, um cabelo preto preto preto escorrido, uns óculos gigaaantes, uns braços muito peludos que acabavam em mãos escondidas por anéis foscos e pulseiras coloridas.

E eu respirei fundo e disse: “Qual o nome da senhora?”. E ela respondeu: “Aracnéia, e o seu?!”...............................
Olhei pra um lado, pra outro, para trás... provavelmente fosse acontecer uma coisa muito esquisita que revelaria que aquela cena não passava de um sonho. A pausa deve ter sido longa. Neste intervalo ela ajeitou os óculos com uma mão e com a outra levou o toco de cigarro à boca para uma tragada inquisidora. Esperava de mim uma resposta.

_ Basta deixar a chave do seu carro conosco, Senhora

Não ousei repetir seu nome. Será que eu tinha entendido certo???? A senhora do fusca azul se chamava Aracnéia????
Não ia cometer a indelicadeza de arregalar os olhos e dizer indignado... “O que??!!!”.
Fui polido. Mas quem me conhece sabe que diante de situações delicadas eu fico mais gago que o normal. E o “Basta deixar a chave” não deve ter sido tão fluente. Deve ter sido algo como “a... se se ssssnhora p ... p... pode de.. de.. deixar... a chave!”.

Nem o Google sabe algo sobre esta mulher. Ou sobre este nome. Nem o Google. Nem...o...Google.

Dias após eu indaguei à vizinhança e sim, era mesmo o nome dela. E todos achavam que ela tinha o nome da cara e a cara do nome. Que coisa... (quando eu digo “que coisa” é porque estou com vontade de colocar a mão no queixo, perder o olhar e me aprofundar no assunto, mas não me alongo para que o texto não fique maçante.)

Tinha um cachorrinho preto, velho, barrigudo, feio, feio... feio de doer! Tinha um tipo de sarna que parecia não ter cura e andava sempre com aquele negócio de abajur na cabeça pra não ficar se coçando.
Ele parava na calçada, ela andava uns cinco metros e quando sentia sua falta, virava pra trás, sorria e o chamava.
Ele ia, passo, passo, passo, passo. Quatro patas, quatro passos. Um de cada vez. E o quarteirão durava uma manhã.

Ninguém está livre dos olhos alheios e dos julgamentos mesmo que bem humorados e inocentes. “Freud gostava de se vestir à tirolesa”. Quando li esta legenda numa foto de um livro sobre ele, eu ri muito! Que esquisito!! Ahaahh...
À tirolesa!! Ahahaha...

2 comentários:

  1. Eu também já pensei em andar com um caderninho. Sabe o que eu faço hoje? Eu anoto como "tarefa" no meu celular, a ser lembrada mais tarde! hahaha Mas um nome desses eu nem faria questão de me lembrar depois! Me causaria pesadelos!!

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  2. Muito bom o texto, Leandro!
    Essa idéia do caderninho é muito boa, mas deveras ultrapassada.
    O lance é andar com um palm ou um celular de ultra-mega-última geração pra anotar as esquisitices alheias.

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